
Vai completar um mês que eu, milagrosamente, consegui arranjar um emprego. Era mais ou menos o que eu esperava, só não esperava que fosse tão longe e ainda, em Aparecida de Goiânia. Pois bem. Esse não é o grande problema; nem chega a ser um empecilho de fato porque quando dá para ir sentada, rola de ler um livro e abstrair o mundo. Mas tem dia que é o inferno. Imagine agora então com esse calor todo, aquela muvuca gostosa de terminal com zilhares de pessoas cansadas e fedidas saindo do trabalho e voltando para as suas casas (ou tanto faz para onde estão indo) com aquele humor cocô e ainda eu lá, acompanhando toda a saga da patuléia como uma mera espectadora. Não que eu no final das contas não faça parte da massa, mesmo porque um curral de transporte coletivo define bem a sua posição diante da vida e, com certeza, ela não difere ninguém de ninguém não importa o nível de peculiaridade de cada ser.
Outro dia, eu fiquei embasbacada com a treta que rolou dentro do ônibus. Foi troço que a gente nem espera porque só queremos chegar em nosso destino são e salvo. Mas ocorreu de um cara grilar com as pessoas que desesperadas por sentar e descansar os ossos um pouco (mesmo que seja nos bancos sistemas de cotas), sentaram-se nos bancos sistemas de cotas e deixaram suas filhinhas pequenas em pé e relativamente pisoteadas pela multidão. O circo estava armado. Pancadaria e ameaças de morte dentro do ônibus. Um espetáculo. Chegou ao ponto do cara tirar uma arma e apontar na cara do outro que nem tinha nada a ver com a treta só porque estava rolando todo um contexto propício para tal. Fiquei uns dois dias traumatizada e sempre entro no ônibus com um pouco de receio, mas devido às circunstâncias, a gente engole seco e prossegue a vida como tem de ser. Beleza.
Hoje. Hoje tinha jogo e eu nem sabia. Fui saber depois de perder o baú da felicidade das 19:20h porque eu estava bem-humorada E prestativa e acompanhei um cego até o ponto que ele queria ficar. Foi interessante a experiência de enxergar por alguém quando eu não estou conseguindo ver direito nem pra mim. Whatever. Cheguei no meu ponto para esperar a doce demora do fabuloso "Praça da Bíblia/Aparecida de Goiânia" e nisso o ponto estava lotaaaaaaado de criaturas efusivas da esquadrão. Lindo! Felizmente eu estava com o humor muito bom. A cada grito de guerra daquele povo, eu tinha de apertar minhas pernas para não fazer xixi nas calças. O povo é o povo e isso nunca vai mudar. Dentro do ônibus foi mais engraçado ainda. Aquela gente toda espancando o teto do ônibus e cantando e sugerindo uma falsa hostilidade. Até que acenderam uma lata de cerveja cheia de crack. Mas nem deu tempo da coisa ficar feia porque o Serra era logo ali. Enfim, são as passagens do cotidiano que a vida nos oferece para temperar a rotina. O mais bonito de tudo é a minha chegada no Sesi... Recepcionada calorosamente por um aluno:
"- Pô, fessôra! Penteia esse cabelo pra dar aula!"
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