quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Coisas que a gente gostaria de ter feito

Zero grau de Libra

Sobre todos aqueles que ainda
continuam tentando, Deus,
derrama teu Sol mais luminoso.


O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê no outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, anda distraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.
Neste grau zero de Libra, queria pedir a isso que chamamos Deus um olho bom sobre o planeta Terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre o mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria hoje o olho bom de Deus derramado sobra as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaranás pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete?" - e o outro grunhe em resposta.
Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor sem nojo nem medo, e de alguma forma insana esperam a volta dele; que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem - nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.
Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar sua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem pelo rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon over bourbon street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel dão duro como garçonetes pelos bares. Olha também a multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de táxi que confessa não ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento nas redações, pelas agências publicitárias,e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto - olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer que não a que são, e viver outra vida que não a que vivem.
Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos os que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar-certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma - sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.
Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio - Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no grau zero de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo o dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse do zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.
(Caio Fernando de Abreu - Pequenas Epifanias)
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Eu vivo me repetindo quanto a isso; mas uma das melhores coisas da vida é estar em uma determinada onda e encontrar por aí algo que expresse, nem tanto, mas quase ipsis litteris essa onda. E digo isso porque ontem mesmo eu passei o dia pensando nos outros. Aliás, ando pensando muito nos outros. Deve ser pelo fato de estar tão envolvida comigo mesma, fazendo as minhas coisas, ainda que essas coisas sejam mais voltadas para os outros que para mim mesma. É uma via dupla que se vai e se vem; e às vezes tenho mais a impressão de ida que de volta, porém, não serei tão ingrata. Impressões por impressões não implica fidelidade. Fidelidade à realidade (ou o que achamos que compõe uma realidade). De qualque forma, ando me perdendo quase sempre em não sei onde. São tantas coisas que parece sintoma de implosão. As dores no corpo e o aperto no coração refletem um pouco do tudo. Eu sempre acreditei muito nessas coisas de somatização. Você está lá guardando as coisas dentro de si, acumulando, juntando e de repente descobre que tem um câncer. Isso faz todo o sentido do mundo. E é por isso que no meu caso, é implosão. Porque parece que é uma espécie de metástase a longuíssimo prazo das coisas que prefiro não dizer sempre pensando nos outros. Eu só espero descobrir que num dia desses qualquer alguém andou pensando em mim; e cultivou seu próprio tumor só para me poupar de desgosto qualquer.
Isso porque eu sempre preferi as coisas muito às claras, mas agora não.

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