terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Pra você que já viu de tudo na vida e não se cansa

Ônibus pára no ponto. As portas não se abrem e a mulher berra do fundo: "- Motoooooriiiissssstaaaaa! Vai descer, porra!" e sai praguejando. Dentro do ônibus continuam os solitários cansados e alguns carentes. "- É um absurdo isso, né!?! Os motoristas deveriam ser mais atenciosos com os passageiros. Eu vivo passando perrengue com as minhas filhinhas que ando pra cima e pra baixo." Mulher com caroço enorme na cara. Parece até que apanha do marido todos os dias no mesmo lugar. "- Sabe... eu moro longe e eu estou com câncer. Vivo tendo de ir para o hospital fazer um monte de exames e tenho de levar minhas filhas. Uma de sete anos, uma de dois e uma de dez meses que eu sempre faço muito esforço para carregar com um braço enquanto seguro a de dois com o outro braço. É terrível!". As feições vão mudando para um estado de perplexidade misturado com desinteresse. "Esses dias atrás mesmo, eu estava no ônibus e fui descer com minhas filhas. Desci com a pequenina no colo e com a de dois anos. Achei que a de sete estava atrás de mim, ela ainda estava dentro do ônibus e o motorista deu uma arrancada brusca e eu, no susto, larguei a do colo no instinto para salvar a outra. Quando dei por mim, a pequena estava presa no meu braço e eu segurava ela pelo pescoço. Quase o motorista leva minha filha embora. Fiquei desesperada." Sorriso meio amargurado. Expressão meio chocada. "- Acho que vou largar meu tratamento. Não posso ficar andando com minhas filhas pra cima e pra baixo desse jeito. Um dia ainda acontece uma tragédia." Certamente. Seja por causa do ônibus, seja outro motivo.

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