sábado, 6 de dezembro de 2008

Às moscas

A vida é um troço engraçado. Troço porque troço é bastante genérico e a vida é coisa ampla. Cheia de mutretas e cabritagens. Tudo difícil de dizer. Que nem nas histórias de Lovecraft que tudo é inenarrável, indizível, inimaginável, indescritível, inacreditável, improvável e impensável. Às vezes a gente se depara com momentos em que nós ficamos olhando ao redor e perguntando mentalmente "Cadê a câmera? Alguém viu isso?" estarrecido e desbaratinado com certas situações, sejam elas cômicas, trágicas e hã... existe algum outro tipo de situação ou essas duas já englobam todos os outros termos?
Enfim. Circunstâncias como essas são muito mais recorrentes do que se pensa. No conforto de seu leito, sozinho e pensativo à convivência diária com dúzias de pessoas, lá estão as ações que compõem um cenário geral e ao mesmo tempo bastante peculiar que traz à tona a singeleza e a pequenez do homo sapiens sapiens e a imensurável capacidade de falar merda. Sim. Todo mundo fala merda o tempo todo, mas existem seres obscuros e trevosos que nasceram, ao meu ver, com esse intuito em especial. Porque não basta apenas existir e fazer parte de um todo aceitando a sua humilde posição de grão de areia incluso numa vastidão sem fim. A necessidade das pessoas de se expressar a todo momento, seja através de um suspiro, seja através de alguma barbaridade, semeia em meu coração (que fique bastante claro que eu não sou nada mais, nada menos que um grão de areia nessa imensa vastidão e outras pessoas têm igual direito de achar que eu só falo merda. beleza) a infertilidade incapaz de gerar amor e compreensão para com o próximo. Digo, se deus realmente estivesse atento a tudo que acontece em virtude de sua onipotência, onipresença e onisciência, daria um jeito nisso, certamente. Mas não... ele arrumou sua trouxinha, botou sua camisa florida e foi encher o pandulho de piña colada em alguma galáxia com praias cor-de-rosa e céu lilás. Isso porque azul demais enjoa, né não? Não. O que enjoa, de uma maneira geral, é ter capacidade de processar informações e polegar opositor. Esse lance de segurar coisas... nomeá-las... e criar toda uma teoria super complexa sobre tudo que nos rodeia. Pra quê? Eu me pergunto pra quê. A eterna busca de sentido se ofusca quando diariamente você lida com seres que estão basicamente preocupados com a sobrevivência. Com a vertente pragmática da coisa. Nascer, crescer, ser estúpido, ganhar dinheiro, ser estúpido, gerar mais estúpidos, trepar, trepar, trepar e gerar mais estúpidos, garantir uma merda de aposentadoria do INSS e morrer estupidamente por causa de algum problema no sistema público de saúde que não permitiu a dignidade, mesmo depois de uma vida inteira de labuta e suor e o tantinho de dinheiro amealhado durante toda a existência foi pro ralo naquele dia que se descobriu que estava morrendo e rolava de parcelar um caixão em 64 vezes.
É doentia a preocupação em fazer as coisas direito. Em querer se dar o respeito em fazer as coisas direito num país tão filho-da-puta como essa bosta de Brasil. O fato de ter de se mexer para garantir a sua própria sobrevivência (que inclui não só o sanduíche mais a pequena ambição de um combo por inteiro), traz o tipo de questionamento que desestrutura qualquer ser provido de um mínimo de compromisso com as coisas.
I mean, pra que se preocupar quando um sujeito vira pra você e diz: "- Não, não. Diz logo que que vai cair na prova. Ninguém aqui está interessado em saber que que é verbo, adjetivo e essas coisas todas não. Estamos aqui porque nossos empregos exigem diploma de conclusão de segundo grau pra gente continuar lá."?
Então... qual é o ponto? A verdade é: Não existe ponto. Existe farsa. Abrace isso ou joque fora. E entenda "jogar fora" como dar um tiro na cabeça.

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