
(Especial: O melhor dia da sua vida - 20/03/2009)
Toda a preparação necessária para o melhor dia da vida não chega a ser suficiente mesmo porque não tem muito o que preparar. A não ser o tempo e a sorte de não topar com imprevistos toscos que sempre aparecem para foder com tudo. A graça não existe tanto em escrever sobre o dia fatídico depois que passou todo o frisson e você já racionalizou metade das trelas proporcionadas pelo ambiente, pelas músicas, pelo doce. O que não deixa de ser uma tentativa singela e humana de ao menos documentar parte de uma bela memória a se guardar no fundo d'alma para o resto da vida, amém.
Pois bem. Estava lá eu respirando num dia qualquer de 2008, quando me avisaram que o Radiohead ia tocar no Brasil em 2009 e tudo indicava que dessa vez a coisa engrenaria porque afinal de contas, eu tinha um estágio de bolsa miserável, muito embora o suficiente para me programar e dar conta de ver a porra do show que eu espero desde que comprei o primeiro álbum da banda mais tchans pra mim nessa atualidade boçal e incompetente. Pausa para colchetes de fluxo de consciência. já. [Interessante que meu primeiro cd foi o Amnesiac. Tá certo que ele foi lançado em 2001 e eu descobri o Radiohead já um bocado tarde, mas o importante é que o Amnesiac tinha pouco tempo no Brasil e eu fui lá toda mobral comprar um cd de uma banda que eu tinha apenas ouvido falar um dia na vida. E o mais interessante ainda é que o Amnesiac se tornou meu álbum mais preferido de todos e eu quase tive um ataque cardíaco quando tocou You and whose army? - mesmo porque rola toda uma memória afetiva com essa música ainda que seja bastante recente. Entretanto, o fato de ter me entregue às lágrimas nesse momento mágico de pura catarse (he he... deus que atua - fluxo inconsciente, porra!) foi o suficiente para liberar minhas tensões fruto de um contínuo acúmulo de emoção de uma vida inteira. Eu poderia ter explodido em mini chicletes, mas confesso que o público carioca é deveras frustrante e me brochou um pouco, ainda mais com aquele comportamento bisonho durante o show dos bregas dos Los Hermanos e o comportamento mais medonho ainda durante o fabuloso show do Kraftwerk. Mateus que estava certo quando veio com aquele papo de dar pérolas aos porcos e não sei mais o quê. [Treta, bicho.]
Levando em consideração que eu já nem sei que que eu estava falando, vou direto ao ponto porque parece que o ponto mesmo eu já até falei sobre. Enfim... eu estava lá no Rio de Janeiro, cheia de bondade no coração, tendo uma bad trip violentíssima na hora do show dos Los Hermanos. Sério mesmo. Aquela gente cantando TODAS as letras em TODOS os momentos. Chorando, pedindo pro Los Hermanos voltarem, dando rata demais na conta da minha frente, estava roubando todo o ar que eu poderia respirar. Suando frio que nem um gado prestes a ser abatido e com uma vontade louca de morrer de descrença. E o show não acava nuuuuuunca. Eterno. Labiríntico no pior sentido. Um cu arrombado. "Deixa eu brincar de ser feliz/ Deixa eu pintar o meu nariz", foda-se esta merda. O show dos Los Hermanos foi tipo visita de vó quando você está lá, doida pra trepar com seu namorado e o povo inventa de fazer bolo de fubá, passar café, melar seu lance, entende? Pois é.
Mas aí tudo veio a calhar quando depois de longos anos de espera, o primeiro sinal evolutivo bem-sucedido apareceu no horizonte. Quatro mesas (sei lá se aquilo é mesa... ) com seus respectivos laptops em cima e todo um dispêndio de energia para agilizar o processo, acontecendo. Um cara varrendo o chão perto dessas mesas. VARRENDO! Eu dei muita trela nisso porque assim, alguém varreu o chão para aqueles babacas dos Los Hermanos!?! NÃO! NÃO! E então eles estavam lá varrendo e montando e testando e trululu e tchans! A travessia começara. Sério mês. Desde quando começou a primeirinha batida de The Man machine (que era a música que eu mais queria ouvir do Kraft e já rolou logo de cara), eu já deixei a coisa fluir para um estado de bem-estar induzido e espontâneo e tudo ao mesmo tempo agora. E daí pra frente foi só alegria, muito embora eu ficasse de dez em dez minutos gritando o Hélio (não interessa quem é o Hélio. Eu sei quem é o Hélio e eu estou contando isso pra mim e então basta eu saber quem o Hélio é). E o show foi indo e tomando proporções alarmantes de beatitude e pureza. [puta que pariu cem vezes] E aquela gente ridícula sentando no chão e dando rata querendo a bosta dos Los Hermanos e não abrindo os olhos para aquelas cores saltando, engolindo a gente. As músicas mais sincronizadas com aquelas imagens maravilhosamente simples e agressoras. Fantástico. Lindo. Sou roceira deslumbrada. Porque ver o mar de manhã e depois encarar um show desses é demais pra mim, eu fico patética e mongolóide.
Depois de toda a emoção provocada pelo futurismo retrô, pelo robótico orgânico, vieram os povos do Radiohead com a lindeza da sua iluminação pró-meio ambiente. ha ha. Parece até piada que aquilo tudo é econômico! A verdade é que eu não tenho palavras para descrever tamanha singularidade de efeito felicidade. Só pude chorar num determinado momento para dar conta de extravazar de alguma forma tudo que eu estava sentindo. Tendo o melhor dia da minha vida do lado do sujeito que está aí encantando meu coração dia após dia. E mais!
Depois do show acabado, estamos saindo rumo à volta para casa quando me deparo com uma cabeça de pinguim nas costas comprando água. Quem era!?! O Héliooooooooo, minha gente! Aí, meus zoin se encheram d'água e eu voltei pra zona da mata cuma mão na frente e a outra atrás.
FIM.
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