Dentro do sonho estava a impressão de obra. Coisas sendo quebradas, batidas, espancadas, destruídas. Aos poucos foi recobrando a consciência. Consciência débil que permitiu tomar a decisão de não abrir os olhos. Não ainda. Merda. É como nascer de novo. Após um período considerável de tempo, já estava suficientemente em si para saber que o vizinho de cima estava de novo promovendo mudanças em seu apartamento. Terceira vez no mês. Melhor é implodir. Preguiçosamente sentou-se na cama, ainda de olhos fechados e contou até nove, mesmo porque sempre acreditou nos múltiplos de três. Abriu-os e olhou para o relógio. Oito da manhã. Calçou os chinelos gastos pelo longo tempo que não quis a possibilidade de comprar um novo par e arrastou-se até o banheiro. Olhou no espelho. Merda. Melhor seria dormir para sempre. Sentiu imensa vontade de voltar para a cama, entretanto, o barulho vindo do andar de cima encorajou-o a prosseguir sua rotina. Escovou os dentes e lavou o rosto com um certo desgosto. Foi até a cozinha e encheu um copo com café dormido, ligou a tv. Já não se faz desenhos como antigamente. Dirigiu-se à porta e pegou seu religioso jornal. Passou os olhos desinteressadamente, como todos os dias. Terminou o café, ainda que deixando um resto no copo e não sentiu vontade de lavar a louça acumulada na pia. Louça de uma semana. Louça de alguém que mora tão sozinho que não vê a necessidade em manter as coisas limpas ou em ordem. Tomou seu banho; talvez o momento mais aprazível do dia para ele pois sentia muito prazer em ficar se molhando. Juntava as mãos numa forma de cumbuca tosca e deixava a água acumular; quando estava cheia até a borda, ligeiro jogava a água nos seus ombros. E se ensaboava tão lento a ponto de acreditar no banho como um ritual de passagem. Passagem para onde não se sabe, talvez para uma melhor condição de abrir a porta e dar conta do mundo tal qual é. Sem novidades, sem perspectivas. Embotado em sua mediocridade, saiu para trabalhar. Entediado dentro de sua pequenez, andava as ruas sem se importar com o mundo a sua volta. A ligeira impressão de continuidade, repetitividade, mais do mesmo ad infinitum, ad nauseam. Olhava as pessoas com certo ar de desinteresse, com descaso e até um pouco de aversão. Conhecer uma pessoa é conhecer todas. Ser humano é um padrão, embora acreditem na pretensa variabilidade. Identidade. Rá. No trabalho, tudo como deveria ser. Vários cafés para dar conta de sua função mera e insuportavelmente burocrática. Comer beber morar dormir respirar trepar. Trabalho e o básico da vida. Burocracia e o básico da vida. O básico da vida de forma burocrática. Tudo a seu tempo e a sua hora porque burlar o burocrático gera descontentamento. Cumpre o horário e tenta confraternizar um momento de descontração. O tédio em saber que não há nada de novo no front, não permite a fluidez. Sai sorrateiro, passa em um desses hipermercados e adquire um novo objeto que garantirá sua salvação: um tapa ouvido. Ao chegar em casa, sem muita delonga, vai ao fim de mais um dia. Fica no quarto lendo, contudo o sentimento de desalento, de variação de uma mesma coisa antes usufruída. Arruma a cama para se deitar. I'm not here, this isn't happening, cantarola. Deita, coloca seu tapa ouvido, pensa duas ou três coisas sem importância e se desliga.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário