terça-feira, 3 de junho de 2008

Borboletando I

A mudança para outro estado praticamente a fez uma garota de prédio. Daquelas crianças que convivem pouco com outras crianças e quando o faz, não ultrapassa exatamente os limites que a imaginação possa ter dentro da cabeça. Contudo, as coisas ficavam diferentes nas férias; quando ia para a casa da avó num lugarejo todo parado no tempo onde as pessoas ainda faziam coisas antigas como, por exemplo, interagir organicamente com a vizinhança. E é por isso que as crianças se reuniam para brincar o que desse na telha naqueles dias quentes de verão que se estendiam por longas horas de nada para fazer, quando não se estivesse na praia em busca de tatuís. E foi num dia desses que duas crianças tiveram a grande idéia de caçar borboletas (justamente pelo fato de nesse lugar parado no tempo ainda ter casas com jardins a perder de vista, num clima pode-se dizer, até meio selvagem), mas não apenas caçar borboletas e sim, caçar borboletas daquele jeito torto infantil. E deu-se início à grande empreitada. Primeiro, era necessário ver o que tinha dentro de casa que não era mais usado pelas pessoas grandes e depois, ver o quanto de moedas tinha disponível no bolso para um futuro gasto com algum aparato muito importante e indispensável ao sucesso. Bem, quase houve desistência, mas a obstinação de um par de infantos em férias não deixaria tudo ir por água abaixo. Depois de fuçar as despensas, com alguns potes de vidro na mão, ninguém poderia parar aquela jornada científica (haha). Enveredados pelos jardins, ficavam de plantão entre as moitas e as plantas altas e esparramadas à espera de uma borboleta graciosa, voando daquele jeito preguiçoso que o verão impõe a todos e aguardando uma pousada estratégica para que fossem lá e TCHANS! Assim a tarde foi passando. A primeira tarde do primeiro dia depois da grande idéia. E dessa maneira duas borboletas sem-graça foram capturadas. Borboletas pretas e não aquelas exuberantes que costumavam pousar no pé de papoula. Ao entardecer, os gritos para tomar banho e sossegar o facho. Tudo viria a ser diferente no outro dia.

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