terça-feira, 3 de junho de 2008

Borboletando II

No dia seguinte, acordou-se cedo, mas não com intuito de dar prosseguimento ao grande plano, mas sim, obviamente, ver desenhos na tv a manhã toda e se empolgar e pensar em estratagemas infalíveis a serem colocados em prática logo depois do almoço. Logo após a refeição, munida de potes de vidro cheios de poeira e teias de aranha, correu à casa do vizinho e rapidamente colocaram-se entre as plantas novamente. Sempre com a ilusão de que estavam sendo discretos o suficiente a ponto de ter a certeza que todas as borboletas seriam presas sem maiores dificuldades. Ledo engano. Algumas horas foram necessárias para que percebessem que a técnica estava deixando a desejar e se puseram a pensar em novas formas de captura. Correram em casa e arranjaram uma daquelas tesouras de costura que os adultos sempre tentam manter as crianças à distâncias potencialmente seguras. E pensaram que talvez cortando os cabinhos das flores, estariam sendo mais espertos e sagazes se fossem rápidos o suficiente com o pote. A primeira experiência foi bem sucedida. Sorrateiros, chegavam à beira da flor e posicionavam o pote com discrição, enquanto o outro vagarosamente mirava a tesoura no cabinho e o cortava, de modo que a flor caía de cabeça para baixo dentro do pote, às vezes esmagando a borboleta. Entretanto, tudo se resolvia com uma leve balançadinha do recipiente. Durante a tarde, várias borboletas foram enclausuradas dentro de potes de várias formas e tamanhos com suas respectivas flores, mas ao fim de tudo, não sabiam o que fazer com elas. Não sabiam onde as colocariam. Não tinham a certeza se elas estavam bem por aparentar uma fraqueza mórbida e muito menos tiveram a consciência de fazer uns buraquinhos na tampa para que as borboletas pudessem pelo menos respirar. Porém, elas resistiram até a próxima idéia. As crianças recorreram a um velho viveiro de pássaros o qual parecia mais que suficiente pela estreiteza de sua tela e pelo espaço supostamente enorme que permitiria o vôo de seus reféns. Estava tudo certo! Um lugar, reféns, flores e pronto. Mas será que borboletas bebem água? Não entrava na cabeça das crianças como um simples inseto poderia beber água. E então, pesaram uma saída aparentemente viável. Não mais que depressa correram até a vendinha mais próxima, juntaram suas moedas e compraram um desinfetante floral. O mais cheiroso e aprazível de todos. O mais caro. O mais mais. Voltaram para o viveiro e distribuíram o líquido precioso e promissor em pequenas tampas de refrigerante e esperaram observando calma e ansiosamente o agonizar das borboletas que em suas cabecinhas de criança pareciam mais surtos incontidos de felicidade. Chegada foi a hora de recolher para o banho e descansar para o outro dia. E o outro dia parecia muito distante. Dormir foi tão difícil. Dormir era impossível. Todavia, o outro dia chegou e não teve uma manhã repleta de desenhos. Logo cedo correu para a casa do vizinho e desesperadamente se puseram em direção ao viveiro. Chegando lá, havia apenas borboletas descoloridas e caídas no pedaço de madeira que servia de chão. Entreolharam-se e tiveram a certeza de que pensavam a mesma coisa. Com os olhares tristes e resignados, saíram andando sem ao menos fazer a mínima idéia de onde foi que erraram em todo o procedimento. Saíram andando calados até que um virou para o outro e disse:
" - Quer um pirulito?"

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