24 de agosto de 1771 (noite)
Levantei sentindo todo o romantismo próprio desses tempos correndo languidamente pelos vasos de meu corpo. Calcei minha chinelinha campestre e pus-me a caminhar pesadamente pela casa antes mesmo do alvorecer; sorte a minha que me entreguei às dores da solidão e fugi para o interior da Alemanha a fim de negar toda a realidade da Revolução Industrial e viver remoendo a desgraça de minha existência junto à natureza. Ah... a natureza. Quanta magnitude e imponência em suas árvores frondosas cujas sombras mantem-me protegida da racionalidade humana que não sabe mais o que é sentir. Sofro de amor. Se a humanidade soubesse como é puro e visceral o sentimentalismo não se entregaria jamais à suposta vivacidade do progresso. Sofro pela organicidade. Pretendo, logo que o sol despontar no horizonte iluminando cada pedaço de chão e as aurículas do meu coração, caminhar descalça pela terra que me abrigará assim que tudo deixar de ser tudo e eu, ser dotado de grande capacidade afetiva, expirar por causa do amor não correspondido. Não consigo conter tanta ansiedade em meu coração. Cada segundo que passa só serve para agonizar meus batimentos cardíacos e me fazer consciente da tortura que o tempo me provoca. Preciso vê-lo. Meu pobre coração urgencia por esse momento único e fantástico. Sonho a cada instante com os olhares se cruzando; mas, deus! Já penso na possibilidade de não haver olhares. O que será de mim se o momento, se meus maiores anseios não se concretizarem em sua plenitude? Pois sei muito bem! Não aguentarei e enfiarei uma tesoura cega em meu coração. Porque é isso que um bom romântico faz. Sacou?
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